sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Maré viva

Você já sentiu vontade de desaparecer?
Não de morrer ou ir embora, desaparecer. Ver cada pedaço seu apagando como a imagem mal cuidada de uma fotografia vai sumindo com o tempo, vai deixando de existir bem devagarinho e depois parece que nunca esteve lá.

Era o início dos anos dois mil quando me senti assim pela primeira vez. Não me lembro da data, nem do que comi aquele dia, não sei qual roupa eu vestia mas me lembro muito bem da sensação e era dolorida. Ainda é.
Lembro de chorar por dentro, de tentar expulsar aquilo da minha cabeça, de querer afastar aquela coisa do meu coração. Lembro do vazio, de me sentir mais só do que nunca e não compreender o motivo. Eu era tão jovem... como pode?
Não precisei de muito tempo para perceber que eu sempre seria só e que a aquela coisa nunca iria embora, enquanto eu existir isso vai acontecer e eu não vou conseguir me esconder, não terei pra onde fugir, a coisa vai vir e vai me engolir viva. E eu vou morrer um pouco por causa disso porque a coisa vai tirando partes de mim e nunca para, nunca acaba, nunca me deixa ir. É uma coisa no coração, na cabeça, no estomago e ela é viva e respira, eu posso sentir ela chegando sutilmente e tomando tudo o que existe em mim.
Com o passar dos anos eu aprendi a conviver com a coisa, aprendi a esconder do mundo que ela está aqui e vez ou outra me toma mas ela nunca deixou de doer. Aprendi a mentir dizendo que não é nada demais, aprendi a deixa-la quieta no canto dela, a não me incomodar quando ela vem e estou cansada demais pra ir contra.
"Nada, ta tudo bem." 
"É só uma dor de cabeça."
"Eu ando um pouco cansada, deve ser o calor ele sempre me cansa"
Tá tudo bem, tá tudo sempre muito bem mas é mentira porque eu soube muito tempo que a coisa não iria embora e ninguém entenderia. Chorei. Implorei. Barganhei. Faz de conta que esse aqui é o meu castelo e um dia eu derrotarei o dragão com a minha espada mágica, vou viver feliz pra sempre, vou escrever "FIM" em letras garrafais e celebrar o dia da minha liberdade. E aí eu acordo e ela vem só pra mostrar que manda em tudo aqui tanto quanto eu, porque ela sou eu e eu sou ela. Se uma desaparece a outra morre mas ela não quer morrer e nem eu.

Você já sentiu vontade de desaparecer?
Eu já. Pena que ela não.
Ela pensa, ela respira e vai te engolir.

Postagem 633



Eu não tenho muita certeza do que acontece por aqui, sei que o tempo esfria e esquenta sem critério porque ele pode fazer o que quer quando quer e nós não. Também não sei se quero saber como as coisas estão indo pois é certo que não vou mudar minha direção.
Não disse não quero, não disse não posso... não vou e reconheço.
Acho nocivo esse faz-tudo-mas-não-faz-nada porque te ocupa o corpo mas escraviza a mente com pensamentos desnecessários; ou talvez essa seja eu querendo dar sentido à coisas que não tem sentido algum, vai saber. 
O fato é que a crise dos 20 e poucos anos tá batendo na porta e eu não quero abrir mas ela vai entrar nem que seja pela janela, porque não dá pra se esconder de algumas coisas e essa é uma delas. E não vai te deixar trabalhar, não vai te deixar pensar, você vai parar de respirar e tudo vai girar em torno do fato de que sua cabeça parece quebrada e tá tudo errado porque não era pra ser assim, era pra ser daquele jeito lá que a gente imaginava quando tinha dez anos.

Fiz uma pausa. Fumei um cigarro, pensei em como me sinto mas não veio nada. Eu só tô cansada de não dormir, de comer mal, de viver de qualquer jeito; eu tô presa, andando em círculos, me viciando no todo o dia que eu não queria pra mim e eu não sei sair, não consigo ver como a gente pode ser tudo mas não consegue ser nada e a dor é excruciante.
É a merda que cai em você sem aviso e permissão.
Mas que droga, a gente só quer dormir.



"Por seis meses eu não conseguia dormir.
Com insônia nada é real."

quarta-feira, 30 de outubro de 2013




Função soneca, estamos cegos e sem muletas

E é simples assim
E a gente come a mesma coisa no café, pra tentar mudar o dia
Pra enfrentar de frente o que vier
E não é fácil estar a par do que acontece aqui
E o ônibus não passa, e o nosso tempo ainda nem começou

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Quinta feira

Não parece mas há muito tempo atrás era só eu. 
Antes das noites em claro, das verdades e mentiras, antes das bebidas... era apenas eu com o mundo me encarando de frente, aquele nó no estomago, aquela ansia infinita por viver tudo ao mesmo tempo e de uma vez. Quanto mais jovem maior a vontade de experimentar o mundo e antes de hoje eu tinha isso, o frio na barriga, o mundo e eu.. só isso.
Sentada na frente do computador digitando essa sopa de letrinhas tenho a impressão de que foi há um milhão de anos todas as primeiras coisas. O primeiro segredo, o primeiro amigo, o primeiro beijo, a primeira casa, o primeiro cigarro, o primeiro porre, mas isso não faz tanto tempo assim porque faz pouco mais de uma década (se bem me lembro) onde tudo o que existia era eu e a vontade de ter todos esses primeiros. Aqui estou, todo esse tempo depois digitando do meu antigo quarto, o lugar onde me criei e é como entrar em uma máquina do tempo com paredes rabiscadas e papéis de bala no chão.

É tão engraçado estar de volta, depois de tantos anos me vejo parada encarando tudo que um dia foi tão meu, tudo o que quis proteger e não era mais meu. São memórias emprestadas de uma garota diferente e que agora volta a ser tudo aquilo que jurou não querer mais pra si. A periferia tem esse ar de nostalgia, o conjunto habitacional, as crianças correndo pela rua com suas pipas no ar, como se os anos não tivessem passado. Tudo igual aos anos em que estive aqui.
Foram bons momentos, maus momentos, foram anos da minha vida que não posso apagar e nem gostaria porque provavelmente faria tudo igual e o doce continuaria doce, e o que doeu doeria de novo, tudo seria exatamente como é e me traria aqui de novo no olho do furacão de emoções.

Antes dos sorrisos, das primeiras e segundas vezes era apenas eu encarando a vida... acho que sinto falta de olhar tudo como se fosse novidade, porque viver já não é tão novo assim. Vai ser, mas não é mais porque vivi rápido demais. Jovens e a sua sede insaciável por novidades, por vida! Acaba sempre se afogando num mar de emoções que nem sabe de onde vem ou pra onde vai, só quer que vá, então as coisas acabam indo porque tem que ir, porque nós fazemos acontecer mas quando o hoje chega (e ele sempre chega) desejamos secretamente que tivessem ido mais devagar afinal, a vida é tão longa e temos todo o tempo do mundo para fazer com que as coisas aconteçam, não é necessário tanta pressa.

Antes de estarmos onde estamos era apenas o que voce costumava ser, sem máscaras e responsabilidades, apenas você do jeito que costumava ser. Um dia você vai voltar ao início porque a vida é assim, um ano pra frente e dois meses pra trás.
Entenda como quiser.

sábado, 15 de junho de 2013

010413

Se eu estivesse em um filme seria a coadjuvante do lado mau, aquela que nunca tem forças para ser a antagonista mas não pode ser do time dos bonzinhos.
Sempre existe uma personagem que erra e acerta mas ninguém está interessado nela e essa sou eu, a quer atenção mas nunca conseguirá porque não é forte ou carismática o suficiente para isso.



Existem os mocinhos, os bonzinhos, os antagonistas, os malvados e os outros.
Os outros são aqueles que namoram os bonzinhos mas no fim da história não ficam com eles porque não seria o final feliz. A moça que faz cagadas, pede perdão e nunca é perdoada porque ninguém a julga merecedora de perdão; o cara que comete o erro comum mas paga por eles com a severidade mais real possível; a moça que é traída e, apesar de não ter errado, não é digna de pena porque esse término resultará na felicidade dos mocinhos. Essa sou eu.
Em todo o filme alguém fica sozinho e ninguém se importa porque você não se lembra do nome dele, a existencia dele serve apenas para que o bonzinho enfrente uma dificuldade antes de encontrar o seu "e viveram felizes para sempre", todos sabem que ele existiu e que foi (ou pode ter sido) fundamental para a história se desenrolar mas ele não ganhou um final feliz para sempre. Na verdade você não sabe qual foi o final dele e, caso saiba, não se lembra mas ele esteve ali.
Essa sou eu, a personagem que merece perdão mas todos se encarregam de inventar uma desculpa para não perdoa-la porque isso atrapalharia os mocinhos, os bandidos e todo o resto.

Sempre existe alguém que perdoa os erros de quase todo mundo mas nunca é perdoado, sempre tem alguém que é o coadjuvante indiferente, alguém tem que fazer esse papel. Alguém tem que estar ali, atrapalhando os planos dos outros para que no fim eles tenham o seu "feliz para sempre" e mesmo que ninguém queira ser, não tem jeito. Você é o que tem que ser e não o que quer ser, o mocinho de coração ruim nunca será amado como o vilão de coração bom, ninguém nunca arranjará desculpas para que ele seja absolvido.
Algumas pessoas tem a torcida a seu favor e outras, bem, outras apenas fazem o que tem que fazer.

domingo, 26 de maio de 2013

(E estive preso no espelho tanto tempo que nem sei bem, e mais cem anos, seis meses, três dias, tudo bem... tanto faz)

sábado, 25 de maio de 2013

09120352

O mundo rejeita pessoas como nós, como eu e como você.


Desde que nasci o mundo não me deseja, ao longo desses vinte e tantos anos tudo o que conheci foi rejeição vinda de todos os lados e durante algum tempo até mesmo de mim. Diariamente sou engolida e vomitada pela vida sem nenhum tipo de compaixão ou justificativa, isso incomoda de uma maneira que só quem já viveu assim pode entender. É doloroso, exaustivo e  desumano.
Por muito tempo tentei me adequar para ser aceita, participei de todos os joguinhos estúpidos que os outros fazem (e voce sabe que fazem) mas mesmo assim, não houve resultado. Resolvi viver de uma maneira diferente, à margem disso, simplesmente não me adequar e continuei sem resultados positivos ou negativos, tudo continuava exatamente da mesma forma.
Por um ou dois pares de anos sofri a dor de ser vomitada dia a dia pelo mundo e por todas pessoas que vivem nele, até que um dia cheguei a uma conclusão desagradável...
Algumas pessoas nasceram pra viver à margem do mundo. Nem todo mundo nasceu pra ser aceito, querido, bonito e cheiroso; nem todo mundo vai poder ser o que quiser e ser feliz dessa forma e isso porque pro bem existir o mal precisa existir também, logo, pra alguém estar feliz alguém tem que estar infeliz em algum lugar. O seu sofrimento é a felicidade do outro e não, não há nada que voce possa fazer.
Veja bem, voce está fodido triste por não ter um emprego e outra pessoa também, mas só há uma vaga, se ela conseguir voce continuará na merda até arrumar outra vaga e se conseguir vai deixar outra pessoa infeliz. É assim que a vida funciona, o problema é que pra cada pessoa que tem uma "sorte" (vamos chamar assim) fora do comum existe eu, existe você e nós temos um "azar" fora do comum. É tudo questão de estatística.
O que significa que não importa o quanto voce tente se adequar, o mundo não te quer e vai te rejeitar sempre...

Rejeição machuca.
Ninguém é solidário, ninguém se interessa por nada disso por isso não superestime as pessoas nem o que elas podem te oferecer. As vezes nascemos pra viver assim,





"O mundo me engole e me cospe porque sabe que eu não devo fazer bem. Na verdade é tão normal, não é nada demais."